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qUEm SaBe: a CuRa?

quem sabe: a cura habita a fresta invisível da nuvem? quem sabe: a cura navega no suspiro das ondas? quem sabe: a cura transita na trilha do vento?   quem sabe: a cura surge na escuta de uma canção? quem sabe: a cura atravessa as fronteiras da emoção? quem sabe: a cura aciona melancolia no coração?   quem sabe: a cura reside no acarinhar a cicatriz? quem sabe: a cura descansa no equilíbrio da não-cura? quem sabe: a cura não contém cura? luZgomeS/Violeta Serena Salvador, 23/01/2021  
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bAÍA

  a baía de todos os santos banha a ferida e a cicatriz no vai e vem das correntes marítimas guia as memórias ancestrais nas águas azul-cristal em movimento...   a baía de todos os santos desaguam no recôncavo a esperança formando um convexo giratório do tempo parado na suspensão do vapor não navegante nas águas do paraguaçu...   a baía de todos os santos acolhem as garças em sua graça ondulam as suas asas apresentando-lhe outras trilhas d’água para voarem rumo a outras estradas...     luZgomeS/Violeta Serena Salvador/Bahia, 17/01/2021 fOtO: luZgomeS

a LiBeRDaDe dO aMoR e dO aMaR

  a liberdade do amor e do amar... fez-me olhar para dentro e sentir amor por esse meu corpo de mulher preta... porque preterimentos de todas as ordens presentificaram-se em minha vida... mágoas cristalizadas infectaram o ar das minhas emoções... as jaulas da insegurança encarcerou-me por muito tempo nas celas das migalhas de qualquer anunciação ilusória de carinho...   a liberdade do amor e do amar fez-me cultivar o meu amor interior como um ato político para a libertação do eu-nós... o amor pode sim, ser cura, como já nos orientou uma mais velha... o amor individual e coletivo, foi a trilha a qual decidi cruzar... amar cada pedacinho desse meu corpo negro é exercício cotidiano na frente do espelho...   a liberdade do amor e do amar faz-me massagear os fios dos meus cabelos crespos... acariciar com delicadeza nariz e lábios... admirar as minhas pernas, parte do meu corpo que sempre gostei... beijar os meus olhos na cegueira da luz solar... brincar no ar com os  meus pequeninos

eSCRiTa ErOtIZaDa

saibam de uma vez por todas:  escrevo para mim e por mim... a escrita me cura... me purifica... me reenergiza... me acolhe... afirma-me que sou mulher delicada... bruta... frágil...  forte... a escrita me mostra os caminhos do  autocuidado e do autoamor...  a escrita leva-me a mergulhar nas águas barrentas e turbulentas do meu ventre... a escrita é o  lugar libertador do meu eu-fêmea-preta sem máscaras sociais... a escrita é o meu espaço seguro e confortável de viver... a escrita restitue a minha humanidade desumanizada pelo racismo e machismo... a escrita permite-me não me tornar uma morta-viva sem esperança na vida... a escrita grita nos meus ouvidos que não sou um pedaço de carne à venda para  ser  consumida predatoriamente... a escrita autoriza-me a   ser uma concha-castelo e me protege dos  homens  estraçalhadores de estranhas com seus tridentes do desamor!...  a escrita apresenta ao universo as minhas  feridas abertas...   a escrita elimina a solidão dos meus seios e oferta-me a

cArmEsIm

  acordei em outra dimensão de mim corri para o alto sem fim [e] bordei flores de esperanças nas paredes rugosas das montanhas desenhei peônias… dálias e violetas… a montanha floresceu de amor a nuvem cinza circundante dos montes e picos desapareceu diante da efemeridade da beleza floral o firmamento se coloriu para mim como cúmplice dos meus desejos mais nobres no topo da montanha olhei para baixo e contemplei o rio azul translúcido enfeitado com pétalas de aconchego o inseto kermes carmesim sobrevoava as pétalas seguro de toda sua fragilidade o vento forte acariciava os meus ouvidos com a sinfonia do invisível diante daquela imensidão do singelo me acolhi no útero da terra… luZgomeS/Violeta Serena Belém, 01 de novembro 2018 fOtO: Ilha de Gorè/Senegal  

sAcUdImEntO dE aLeRTa

  a vida anoiteceu sem sacudimento de alerta estagnações cotidianas amanhecem sucessivamente letargias entorpecentes alucinam o ar do entardecer é tudo mais do mesmo é tudo não o mesmo confusões do dia corrente criam realidades irreais nos museus da retina a documentação do instante se perde na sala expositiva do aqui e agora a vida não cabe em vitrines mas às vezes, ela se acomoda em algum cômodo da existência sem conservação preventiva passando por um lento processo de decomposição… luZgomeS/Violeta Serena Belém, 12 de novembro 2018

cEntEnÁrIO dO rEInO dE XAnGÔ

  a centenária ancestralidade guiadora da minha existência levou-me ao encontro de mim… sentada naquela platéia, sem roupas luxuosas de Ekedi, mas exibindo o meu vestido descolado do brechó lisboeta, observei aquele xirê no templo de Xangô como de fora e de dentro… o afastamento necessário para a descoberta do mundo fez-me renascer como uma rocha florida nas águas deslocadas das minhas trompas… mergulhei nos arquipélagos do meu útero para remapear o meu ser na luminosidade da argila negra... neguei… excluí… silenciei… desapeguei… mas não esqueci… a menina da beira do paraguaçú ainda reage ao alujá da justiça e sabe curvar-se diante do machado que rasga as pedras das injustiças… não entendi o porquê enquanto filha de Nanã e Oxum fui levada a um reencontro com Xangô… pensei: - sou dessas pessoas dada à alegria do encanto de viver! e Xangô para mim é isso: a alegria presentificada em fogo de fúria na realeza… escavei as memórias da minha matéria… rememorei momentos de festas e afetos no