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cArtA VaZia

às vezes procuro respostas na singeleza de um fragmento folhístico sobre o concreto... a decomposição da folha decompõe o meu olhar sobre o meu corpo... muitas vezes desamado-desgastado-odiado-expropriado-violentado... decompondo a folha na minha retina penso nos resquícios dos vazios que se alastram no interior de mim destruindo o meu corpo-matéria no cotidiano da vida... me fazendo acreditar por muito tempo que não era nada... criando em mim a falsa ilusão de uma vida sem sentido... construindo em algum recôndito do meu âmago o desespero por não ser ninguém... pausei! respirei! e contemplei o mundo ao redor!!!... dei-me conta que a existência inútil me apavora... e esse tal de caminho do meio nunca fez parte do meu meio... excessivamente sempre busquei o verdadeiro sentido da minha existência nesse mundo caótico de descontrário de tudo...hoje sei que tudo que faço é para me salvar desse fantasma do vazio amoroso que ainda não foi exorcizado em mim... descobri que só o amor desmedido...

cIdAdE VaZia?

Ela perambulava consigo mesma pelas ruas da cidade… entrava e saía em becos… subia e descia ladeiras… beijava com os olhos as águas azuis do rio-mar… ouvia os sons ausentes que ressoavam no vento… sentia sob seus pés aquelas pedras que alguém colocou ali recentemente ou antes mesmo dela existir… tocava as paredes antigas com suas marcas incrustadas do presente… brilhava efusivamente com a luz de cada lampião do passado… ela habitava a cidade e a cidade a habitava… formavam um só corpo enlaçado no tecido colorido do tempo… conversava com a cidade… sorria para cidade… chorava na cidade… amava insanamente a cidade, na cidade e as pessoas da cidade… Por isso te digo meu camarada, para ela, deambulantemente, a cidade nunca está vazia... a presentificação humana independe  do corpo físico materializado no espaço… Violeta Serena Lisboa, 16 de janeiro de 2016